Tempos modernos
Esses dias eu tava falando com a Pri (obviamente né!, porque só ela me atura pra falar dessas coisas) sobre a barbárie dos gladiadores, das execuções públicas, as penas capitais impostas pela igreja, pessoas queimadas em fogueiras, entre outras sandices e me deparei com um raciocínio bastante coerente quando citei sobre como a população daquelas épocas adorava isso tudo e fazia questão de exercer em público seu fascínio sobre a violência e a sede de sangue.
Acotovelavam-se uns aos outros na tentativa de obter o melhor ângulo para jogar um ou outro objeto ou ainda ver o golpe fatal onde jaziam totalmente incólumes os futuros mortos diante de uma massa insana que só sabia odiar e julgar.
Pensei comigo: Nossa com eram atrasados aqueles povos. Como podiam adorar tanto o sangue alheio sendo servido de bandeja? E principalmente fiquei satisfeito em estar em outra época, envolto em outra lei, que proibia tal aberração.
Foi quando esse raciocínio básico a qualquer um caiu por terra.
Lembrei de certa menina jogada de certo prédio, pressupostamente por certos pais que a essa altura já eram assassinos e lembrei de certa população pichando muros, dizendo palavras de ataque e desejando o mesmo tipo de morte lá daquele século que eu achava que não vivia mais. Pois bem. Culpados ou não, não me cabe dizer. Não julgo as leis, não avalio as evidências e não sei quem fez o que. A única coisa que posso falar é sobre minhas próprias razões que foram afetadas sobre essa massa ridícula que não tem mais o que fazer a não ser xingar e escorraçar o alheio em busca de sua própria satisfação pessoal.
Não pensem vocês, queridos e finitos leitores, que essa barbárie de séculos passados acabou. Se ainda fosse permitido, esses pais já teriam morrido apedrejados ou no mínimo linchados pela massa ensandecida que simplesmente faria cumprir o que imaginário popular já admitiu ser a verdade. É óbvio que podem ser culpados e que minha ridícula crítica seria dissolvida em segundos, mas não vem ao caso a culpa ou a falta dela. O que vem ao caso é a falta do que fazer. O que vem ao caso é a necessidade primitiva que se faz a massa de julgar e chamar de assassinos qualquer um que queiram. O que vem ao caso é o que estas pessoas estão fazendo lá, em pleno dia laboral, libertos, esquecendo que no restante do Brasil, outras tantas crianças são jogadas, assassinadas, mutiladas e escravizadas. Porque lembram-se da Isabela e esquecem de Patrícias, Adrianas, Leilas e Anas? Porque se lembram de um caso isolado e dão de ombros a quem votaram na eleição passada?
A meu ver, porque parece ser indolor a dor que sofremos juntos. Se eu e você somos roubados pelo mesmo mensaleiro, então minha dor é menor, já que dividimos a culpa e a fatia paga, mas se só uma filha for assassinada aí é indignante. Óbvio que é indignante. Ninguém vai dizer o contrário. Mas pra mim morrer mesmo é ter memória curta, cruel e sadista e votar de novo no ladrão que me roubou. Aí sim é morrer. Mas de vergonha. Morrer pela burrice. Vamos punir os culpados pela coitada da menina. Mas não vamos esquecer os culpados por jogar o Brasil todos os dias de um andar muito mais alto que qualquer prédio possa ter por aí.
Escrito por Flex às 03h03
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